Protótipo do Boeing 747-8I decolando, com as cores da Boeing

Boeing 747: A Rainha dos Céus

Em abril de 1966, a Pan Am assinou um pedido de 25 aviões que ainda não existiam, por US$ 525 milhões. A aeronave não tinha projeto pronto, nem fábrica onde ser construída, nem motor com empuxo suficiente. Quatro anos depois, ela decolava de Nova York rumo a Londres e mudava para sempre quem podia comprar uma passagem aérea.

A aposta que deu errado (e certo)

Juan Trippe, da Pan Am, queria um avião duas vezes e meia maior que o 707. Bill Allen, da Boeing, disse sim. Mas os dois trabalhavam sob uma convicção que hoje soa curiosa: a de que o futuro do transporte de passageiros pertencia aos supersônicos, como o Concorde. O 747 subsônico, imaginavam, teria uma vida comercial curta e terminaria seus dias como cargueiro.

Essa previsão moldou o avião inteiro. Para permitir o carregamento frontal de carga, a cabine de comando foi erguida acima do nariz — e daí nasceu a corcova do andar superior, a silhueta mais reconhecível da história da aviação. O supersônico nunca dominou o mercado. A corcova ficou.

Os "Incríveis" de Everett

Joe Sutter, transferido do programa 737 em 1965, liderou a equipe de engenharia. O prazo era brutal: cerca de 28 meses entre a aprovação do projeto e a saída do primeiro exemplar da linha de montagem. A Boeing apelidou o time de "The Incredibles".

Não havia onde montar um avião daquele tamanho. A empresa comprou terras perto de Paine Field, em Everett, moveu quatro milhões de jardas cúbicas de terra e construiu o maior edifício do mundo em volume — um prédio que ainda hoje detém o recorde.

Em 30 de setembro de 1968 o 747 foi apresentado ao público. Em 9 de fevereiro de 1969, com Jack Waddell nos comandos, voou por 1h50 sobre o estado de Washington.

Não era só um avião maior. Era o primeiro widebody — o primeiro corredor duplo — e isso redefiniu o que uma cabine de passageiros poderia ser.
Space Shuttle Endeavour sobre o 747 Shuttle Carrier Aircraft da NASA na decolagem
O ônibus espacial Endeavour decolando sobre o 747 Shuttle Carrier Aircraft da NASA, em Edwards, Califórnia, outubro de 1994. Foto: NASA (domínio público).

O avião que encolheu o mundo

Com 366 a 400 passageiros em configuração típica — e até 524 em versões densas —, o 747 derrubou o custo por assento-quilômetro. Voar para o outro lado do oceano deixou de ser privilégio de executivos e diplomatas. Nas décadas de 1970 e 1980, foi o 747 que levou trabalhadores migrantes, mochileiros e famílias inteiras a lugares que antes só existiam em revistas.

O andar superior virou símbolo de status; o convés principal, o motor econômico da aviação de longo curso.

Quatro décadas de reinvenção

A rainha nunca ficou parada. O 747-200 ganhou alcance e virou plataforma militar — os dois VC-25 que servem como Air Force One são derivados dele. O 747SP, encurtado, cruzava distâncias recordes. O 747-400, lançado em 1988, trouxe cockpit de vidro, winglets e tripulação de dois pilotos, dispensando o engenheiro de voo: com 694 unidades, tornou-se a versão mais produzida.

O último capítulo foi o 747-8, com motores GEnx e asa nova. Com 76,3 m, a versão de passageiros é o avião comercial mais comprido já construído.

Fora das companhias aéreas, o 747 carregou ônibus espaciais nas costas e voou como observatório: o SOFIA, um 747SP com um telescópio infravermelho de 2,7 m atrás de uma porta que se abria a 13 mil metros de altitude.

O 747SP do observatório SOFIA da NASA em voo com a porta da cavidade do telescópio aberta
O SOFIA, 747SP convertido em observatório infravermelho, testa as portas da cavidade do telescópio em voo, 2010. Foto: NASA / Jim Ross (domínio público).

Por que a rainha abdicou

O que derrubou o 747 não foi um avião maior, mas dois motores. À medida que as regras de ETOPS foram liberando bimotores para rotas oceânicas longas, aeronaves como o 777, o A330, o 787 e o A350 passaram a fazer o mesmo trajeto com metade dos motores, metade da manutenção e muito menos combustível por assento.

As companhias também mudaram de estratégia: em vez de concentrar passageiros em poucos hubs gigantes, passaram a oferecer voos diretos e mais frequentes entre cidades menores. O 747 era a resposta perfeita para uma pergunta que o mercado parou de fazer.

Em 31 de janeiro de 2023, a Boeing entregou o 1.574º e último 747 — um cargueiro 747-8F — à Atlas Air, encerrando 54 anos de produção.

O legado

A rainha não desapareceu: dezenas de 747-8F e 747-400F seguem carregando carga pesada e volumosa pelo mundo, e o nariz articulado que só existe porque alguém apostou no Concorde continua sendo insubstituível para certos tipos de frete.

Poucas máquinas mudaram o comportamento humano tanto quanto essa. O 747 não foi apenas o maior avião de sua época — foi o que transformou a viagem intercontinental em algo banal. Nenhum título é mais difícil de conquistar do que esse.

Referências

  1. Boeing — Boeing, Atlas Air Celebrate Delivery of Final 747, 31 jan. 2023. Disponível em: boeing.mediaroom.com
  2. Boeing — Final Boeing 747 Airplane Leaves Everett Factory, dez. 2022. Disponível em: investors.boeing.com
  3. HistoryLink.org — Boeing 747 takes maiden flight on February 9, 1969 (ensaio 1181).
  4. Wikipédia — Boeing 747: histórico de desenvolvimento, variantes e produção.
  5. Airport Spotting — A Guide to Boeing 747 Variants: números de produção por versão.
  6. flugzeuginfo.net — Boeing 747-8: Specifications / Technical Data.
  7. NASA — imagens EC94-42789-6 (Shuttle Carrier Aircraft) e ED10-0182-02 (SOFIA), domínio público.
  8. Wikimedia Commons — 747-8I_(N6067E)_takeoff.jpg, foto de Dave Subelack (CC BY-SA 2.0).