Em 24 de abril de 1990, o ônibus espacial Discovery soltou em órbita um cilindro de 13 metros e 11 toneladas. Pela primeira vez, um observatório grande o bastante para rivalizar com os telescópios no chão ficaria acima da atmosfera — sem cintilação, sem nuvens, com visão ultravioleta que o ar da Terra bloqueia. Semanas depois veio o choque: as estrelas saíam embaçadas. O Telescópio Espacial Hubble tinha um defeito no espelho. E quase virou o maior fracasso público da NASA.
Um Observatório Fora da Atmosfera
A ideia é antiga. Em 1946, o astrofísico Lyman Spitzer argumentou que um telescópio no espaço veria o cosmos com uma nitidez impossível no solo. Décadas de projetos, cortes orçamentários e o atraso do ônibus espacial empurraram o lançamento para 1990. O nome homenageia Edwin Hubble, o astrônomo que, nos anos 1920, mostrou que as “nebulosas” eram outras galáxias — e que o universo está em expansão.
O Hubble observa no ultravioleta, no visível e no infravermelho próximo. O espelho de 2,4 metros não é o maior do mundo, mas fora da atmosfera entrega resolução de cerca de 0,05 segundo de arco. Completa uma volta na Terra a cada 95 minutos, a uns 540 km de altitude.
O Erro de 2,2 Micrômetros
O espelho primário havia sido polido com precisão extrema — e com um erro sistemático de 2,2 micrômetros, cerca de 1/50 da espessura de um fio de cabelo. O resultado: aberração esférica. Pontos de luz viravam halos. A imprensa falou em “telescópio míope”. O conserto não podia ser na Terra: o Hubble já estava no espaço. A solução foi uma missão de astronautas para instalar ótica corretiva — o COSTAR — e uma câmera nova (WFPC2) já projetada para compensar o defeito.
Em dezembro de 1993, a tripulação da STS-61 fez cinco caminhadas espaciais. Quando as primeiras imagens corrigidas chegaram, o cientista-chefe do programa, Edward Weiler, resumiu o alívio da agência:
"Está consertado além das nossas expectativas mais ousadas." — Edward Weiler, após as primeiras imagens nítidas do Hubble em 1993
Cinco Visitas que Salvaram o Telescópio
O Hubble foi desenhado para ser consertado em órbita — um luxo que o James Webb, no ponto L2, não tem. Quatro missões seguintes (1997, 1999, 2002 e 2009) trocaram giroscópios, painéis solares, computadores e câmeras. A última, a bordo do Atlantis, deixou o observatório mais capaz do que no dia do lançamento. Desde então, ninguém voltou. O telescópio segue sozinho, com a órbita caindo aos poucos e os giroscópios envelhecendo — mas ainda produzindo ciência.
As Fotos que Mudaram a Astronomia
Em 1995, Jeff Hester e Paul Scowen apontaram o Hubble para a Nebulosa da Águia. O resultado — três colunas de gás e poeira a 6.500 anos-luz, batizadas de Pilares da Criação — virou o cartaz da astronomia moderna: berçários estelares visíveis, erosão por luz ultravioleta, estrelas nascendo no interior das colunas.
Em 2003–2004 veio o outro extremo: o Hubble Ultra Deep Field. O telescópio olhou para um pedaço de céu vazio, do tamanho de um grão de areia à distância do braço, na constelação da Fornalha. Depois de mais de 11 dias de exposição, o “vazio” revelou cerca de 10 mil galáxias — algumas quando o universo tinha menos de um bilhão de anos. Era um núcleo de história cósmica numa fração da Lua cheia.
O que o Hubble nos ensinou
Além das imagens, o Hubble mediu a constante de Hubble com precisão inédita, datou a idade do universo (~13,8 bilhões de anos), flagrou discos protoplanetários, acompanhou o choque do cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter e identificou atmosferas de exoplanetas. O James Webb, no infravermelho, vê mais longe no tempo; o Hubble continua insubstituível no ultravioleta e no visível. Os dois se complementam — não se substituem.
Mais de três décadas depois do susto do espelho, o observatório que quase virou constrangimento nacional é o instrumento científico mais produtivo da história da astronomia. Cada foto nova ainda começa da mesma maneira: um olho de 2,4 metros, a 540 km de altitude, apontado para um universo que, sem ele, teríamos visto embaçado.
Referências
- NASA — Hubble Space Telescope. Disponível em: science.nasa.gov/mission/hubble
- ESA/Hubble — Arquivo de imagens e comunicados. Disponível em: esahubble.org
- Zimmerman, Robert — The Universe in a Mirror: The Saga of the Hubble Space Telescope. Princeton University Press, 2008.
- Spitzer, Lyman — Astronomical Advantages of an Extra-Terrestrial Observatory. RAND / Project RAND, 1946.
- NASA History Division — Hubble servicing missions (STS-31, STS-61, STS-125). Disponível em: history.nasa.gov
- Wikimedia Commons — Imagens de domínio público (NASA; NASA/ESA / STScI).
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