Telescópio Espacial Hubble visto do ônibus espacial Atlantis em 2009

Telescópio Espacial Hubble: O Olho que Reescreveu o Universo

Em 24 de abril de 1990, o ônibus espacial Discovery soltou em órbita um cilindro de 13 metros e 11 toneladas. Pela primeira vez, um observatório grande o bastante para rivalizar com os telescópios no chão ficaria acima da atmosfera — sem cintilação, sem nuvens, com visão ultravioleta que o ar da Terra bloqueia. Semanas depois veio o choque: as estrelas saíam embaçadas. O Telescópio Espacial Hubble tinha um defeito no espelho. E quase virou o maior fracasso público da NASA.

Um Observatório Fora da Atmosfera

A ideia é antiga. Em 1946, o astrofísico Lyman Spitzer argumentou que um telescópio no espaço veria o cosmos com uma nitidez impossível no solo. Décadas de projetos, cortes orçamentários e o atraso do ônibus espacial empurraram o lançamento para 1990. O nome homenageia Edwin Hubble, o astrônomo que, nos anos 1920, mostrou que as “nebulosas” eram outras galáxias — e que o universo está em expansão.

O Hubble observa no ultravioleta, no visível e no infravermelho próximo. O espelho de 2,4 metros não é o maior do mundo, mas fora da atmosfera entrega resolução de cerca de 0,05 segundo de arco. Completa uma volta na Terra a cada 95 minutos, a uns 540 km de altitude.

O Erro de 2,2 Micrômetros

O espelho primário havia sido polido com precisão extrema — e com um erro sistemático de 2,2 micrômetros, cerca de 1/50 da espessura de um fio de cabelo. O resultado: aberração esférica. Pontos de luz viravam halos. A imprensa falou em “telescópio míope”. O conserto não podia ser na Terra: o Hubble já estava no espaço. A solução foi uma missão de astronautas para instalar ótica corretiva — o COSTAR — e uma câmera nova (WFPC2) já projetada para compensar o defeito.

Astronautas Story Musgrave e Jeffrey Hoffman reparando o Hubble em 1993
Dezembro de 1993: Story Musgrave na ponta do braço robótico e Jeffrey Hoffman no porão de carga, na primeira missão de serviço do Hubble (STS-61). Foto: NASA (domínio público).

Em dezembro de 1993, a tripulação da STS-61 fez cinco caminhadas espaciais. Quando as primeiras imagens corrigidas chegaram, o cientista-chefe do programa, Edward Weiler, resumiu o alívio da agência:

"Está consertado além das nossas expectativas mais ousadas." — Edward Weiler, após as primeiras imagens nítidas do Hubble em 1993

Cinco Visitas que Salvaram o Telescópio

O Hubble foi desenhado para ser consertado em órbita — um luxo que o James Webb, no ponto L2, não tem. Quatro missões seguintes (1997, 1999, 2002 e 2009) trocaram giroscópios, painéis solares, computadores e câmeras. A última, a bordo do Atlantis, deixou o observatório mais capaz do que no dia do lançamento. Desde então, ninguém voltou. O telescópio segue sozinho, com a órbita caindo aos poucos e os giroscópios envelhecendo — mas ainda produzindo ciência.

As Fotos que Mudaram a Astronomia

Em 1995, Jeff Hester e Paul Scowen apontaram o Hubble para a Nebulosa da Águia. O resultado — três colunas de gás e poeira a 6.500 anos-luz, batizadas de Pilares da Criação — virou o cartaz da astronomia moderna: berçários estelares visíveis, erosão por luz ultravioleta, estrelas nascendo no interior das colunas.

Pilares da Criação na Nebulosa da Águia, fotografados pelo Hubble em 1995
Os Pilares da Criação (Nebulosa da Águia, M16), 1995. Composto de 32 exposições da câmera WFPC2. Foto: NASA / Jeff Hester e Paul Scowen (domínio público).

Em 2003–2004 veio o outro extremo: o Hubble Ultra Deep Field. O telescópio olhou para um pedaço de céu vazio, do tamanho de um grão de areia à distância do braço, na constelação da Fornalha. Depois de mais de 11 dias de exposição, o “vazio” revelou cerca de 10 mil galáxias — algumas quando o universo tinha menos de um bilhão de anos. Era um núcleo de história cósmica numa fração da Lua cheia.

Hubble Ultra Deep Field: milhares de galáxias distantes na constelação da Fornalha
Hubble Ultra Deep Field (2003–2004): uma região minúscula na Fornalha, com cerca de 10 mil galáxias. Foto: NASA e ESA (domínio público).

O que o Hubble nos ensinou

Além das imagens, o Hubble mediu a constante de Hubble com precisão inédita, datou a idade do universo (~13,8 bilhões de anos), flagrou discos protoplanetários, acompanhou o choque do cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter e identificou atmosferas de exoplanetas. O James Webb, no infravermelho, vê mais longe no tempo; o Hubble continua insubstituível no ultravioleta e no visível. Os dois se complementam — não se substituem.

Mais de três décadas depois do susto do espelho, o observatório que quase virou constrangimento nacional é o instrumento científico mais produtivo da história da astronomia. Cada foto nova ainda começa da mesma maneira: um olho de 2,4 metros, a 540 km de altitude, apontado para um universo que, sem ele, teríamos visto embaçado.

Referências

  1. NASA — Hubble Space Telescope. Disponível em: science.nasa.gov/mission/hubble
  2. ESA/Hubble — Arquivo de imagens e comunicados. Disponível em: esahubble.org
  3. Zimmerman, Robert — The Universe in a Mirror: The Saga of the Hubble Space Telescope. Princeton University Press, 2008.
  4. Spitzer, Lyman — Astronomical Advantages of an Extra-Terrestrial Observatory. RAND / Project RAND, 1946.
  5. NASA History Division — Hubble servicing missions (STS-31, STS-61, STS-125). Disponível em: history.nasa.gov
  6. Wikimedia Commons — Imagens de domínio público (NASA; NASA/ESA / STScI).