Em 17 de janeiro de 1991, às 2h38, oito AH-64A da 101.ª Divisão Aerotransportada dispararam os primeiros tiros da Guerra do Golfo. A Força-Tarefa Normandia tinha voado baixo, de noite, até dois sítios de radar no oeste do Iraque. Em quatro minutos, mísseis Hellfire, foguetes Hydra 70 e o canhão de 30 mm apagaram as duas estações. O corredor de cerca de 20 milhas ficou aberto para os caças. O Apache não era o aparelho mais rápido da coalizão. Era o que carregava o arsenal certo.
O Cobra já não bastava
Depois do Vietnã, o Exército dos Estados Unidos precisava de mais do que o AH-1 Cobra. O acordo de Key West de 1948 impedia o Exército de possuir aviões de ataque de asa fixa: o A-10 ficava com a Força Aérea. Restava o helicóptero. Em 15 de novembro de 1972 abriu-se o programa Advanced Attack Helicopter. Em 1976, o YAH-64 da Hughes venceu o YAH-63 da Bell: rotor de quatro pás, mais tolerante a danos, trem de pouso que não tombava no terreno.
O protótipo voou em 30 de setembro de 1975. Entrou em serviço em abril de 1986. Hughes, depois McDonnell Douglas, depois Boeing. Dois motores General Electric T700, dois tripulantes em tandem — o piloto atrás e acima, o atirador à frente. A cabine e as pás foram desenhadas para aguentar um impacto de 23 mm. O Apache não nasceu para ser o helicóptero mais ágil do mundo. Nasceu o que o Exército conseguia apontar contra um tanque e voltar.
Três armas, um helicóptero
Quatro pilones nas asas curtas. No máximo, 16 mísseis AGM-114 Hellfire — quatro em cada estação. O Hellfire, guiado a laser, foi feito para furar blindagem a cerca de 8 km. O nome veio da sigla Helicopter Launched, Fire and Forget. No Golfo, o tanque era o alvo de primeira prioridade: Hellfire nele; o resto, para as outras armas.
Os foguetes Hydra 70 de 70 mm saem de lançadores M261 de 19 tubos. Servem contra veículos leves, infantaria, posições. Debaixo do nariz, o canhão M230 de 30 mm dispara cerca de 625 tiros por minuto, com uns 1.200 projéteis a bordo, escravo do capacete do atirador. A doutrina do Golfo resumiu o desenho: tanques com Hellfire, BMPs com foguetes e 30 mm, caminhões com o canhão. Três armas. Uma saída.
Quem aponta, dispara
O arsenal não vale sem quem o aponta. À frente, o TADS e o PNVS — sensores de dia, de noite e de mau tempo, com designador laser para o Hellfire. O capacete IHADSS projeta a mira no olho: o canhão segue o olhar. Os dois tripulantes voam e disparam. O atirador não troca de helicóptero para mudar de arma. Troca de interruptor.
No AH-64D, a partir de 1997, o radar AN/APG-78 Longbow sentou-se no mastro, acima do rotor. Vê através de fumo e poeira. Dispara variantes de Hellfire que não exigem o laser até o impacto. Os testes do Exército falaram em sete vezes mais sobrevivência e quatro vezes mais letalidade que o A. O radar não substituiu o canhão. Deu-lhe tempo.
"No Apache, o melhor tiro não é o mais perto. É o que o tanque ainda não viu."
1991: o arsenal em combate
O primeiro combate foi em 1989, no Panamá. Foi no Golfo que o arsenal se provou. Além da Normandia, 277 Apaches participaram da ofensiva terrestre de 100 horas e destruíram 278 tanques, além de dezenas de outros veículos — mais de 500 alvos destruídos. Um AH-64 caiu após um RPG a curta distância; a tripulação sobreviveu. A logística rangia: peças, horas de voo, manutenção que não acompanhava. O poder de fogo chegou primeiro. O resto, o Exército teve de aprender.
O que ficou no ar
A família cresceu no próprio Apache. O D trouxe o Longbow. Nos anos 2010 veio o AH-64E Guardian: motores T700 mais fortes, sensores melhores, foguetes Hydra guiados APKWS. Mais de 2.700 exemplares foram entregues ao Exército dos EUA e a 18 parceiros. O drone barato mata tanques. O Apache continua o arsenal tripulado que mistura canhão, foguete e míssil na mesma saída.
Israel, Reino Unido, Países Baixos, Índia: o Apache também voa fora dos Estados Unidos. Mas o sucesso que importa para a história do ataque em terra é outro. Ele encaixou no campo — no voo raso, na noite, na prioridade do tanque, na capacidade de ir à guerra com três armas e voltar com as três. O E ainda é a espinha dorsal das unidades de ataque americanas. Não porque o Apache tenha sido o helicóptero mais belo do céu, mas porque foi o que o Exército conseguiu usar todos os dias.
Referências
- U.S. Army — fichas e histórico operacional do AH-64 Apache, do AH-64D Longbow e do AH-64E Guardian.
- Army University Press — Força-Tarefa Normandia, 17 de janeiro de 1991, abertura da Operação Desert Storm.
- Wikipédia — Boeing AH-64 Apache: YAH-64, entrada em serviço, Hellfire, Hydra 70, M230 e variantes D/E.
- Boeing / Hughes Helicopters — família AH-64 e mísseis AGM-114 Hellfire.
- U.S. Army / Wikimedia Commons (domínio público) — CW2 Cameron Roxberry, Fort Wainwright, 2 jun. 2019 (capa); SFC Erwin Orbe, Balad, 31 jan. 2007 (canhão M230); National Training Center, Fort Irwin, maio 2014 (decolagem armada).