Em 5 de junho de 1967, ao amanhecer, Mirage IIICJ israelenses decolaram de Hatzor e de Ramat David. A Operação Foco não era um duelo no ar: era destruir as forças aéreas árabes ainda no chão. Os deltas carregavam bombas, não só mísseis. No fim do primeiro dia, a superioridade aérea estava decidida. Nos dias seguintes, os mesmos Mirage reivindicaram 48 dos 58 abates ar-ar da guerra. O caça que a França tinha feito para interceptar bombardeiros sobre a Europa virara outra coisa: o avião que ganhava guerras no deserto.
O Caça que a França Fez Sozinha
Em 1952 o governo francês pediu um interceptador leve, todo-tempo. A Dassault respondeu com o MD 550 Mystère-Delta, pequeno demais para radar e armas. O passo seguinte foi o Mirage III: trinta por cento mais pesado, um único SNECMA Atar com pós-combustão, asa delta sem profundor. Roland Glavany decolou o III-001 em 17 de novembro de 1956, em Melun-Villaroche. Em 24 de outubro de 1958, um IIIA de pré-série fez Mach 2,2 em voo nivelado — o primeiro avião da Europa Ocidental a sustentar Mach 2. A França não queria depender do F-104 americano. Queria um caça seu.
A geometria era a doutrina. Sem profundor, os elevons no bordo de fuga fazem arfagem e rolagem. A asa fina, de cerca de 60 graus no bordo de ataque, paga o preço em pista longa e em manobra lenta; cobra o juro em Mach 2 com um motor só. Dois canhões DEFA de 30 mm no ventre. Radar Cyrano no nariz. Foguetes SEPR sob a fuselagem, nos primeiros III, para o trecho final da interceptação. O III não nasceu o melhor caça de curva do mundo. Nasceu o interceptador que a Armée de l’Air conseguia produzir e exportar.
Interceptar, Depois Atacar
O IIIC entrou em serviço em 19 de dezembro de 1961, em Dijon. Alerta de cinco minutos, míssil R.530 no eixo; anos depois, o Magic na ponta da asa. O IIIE alongou a fuselagem, pôs radar ar-solo e virou caça-bombardeiro. O Mirage 5 tirou o radar caro para quem voava de dia e queria bombas: mais simples, mais barato, o mesmo delta. Israel encomendou o 5; depois da guerra de 1967 a França embargou. A IAI fez o Nesher. Um tipo, cinco pilones, três ofícios: interceptar, atacar, fotografar (IIIR). Numa força aérea sem indústria própria de caça, isso valia uma frota.
1967: O Delta em Combate
O batismo que importou não foi sobre Dijon. Foi sobre o Sinai e o Golã. Depois dos Seis Dias veio a Guerra de Desgaste e, em 1973, o Yom Kipur: os Mirage israelenses voltaram ao ar-ar, o Nesher ao lado. Giora Epstein, o ás dos jatos supersônicos, somou as suas vitórias nesse delta e no primo israelense. Em 1982, a Argentina levou Mirage IIIEA e Dagger (Nesher) às Malvinas: o III alto, a interceptar; o Dagger baixo, a atacar navios. O Sea Harrier britânico cobrou o preço. O desenho, mesmo assim, tinha ido à guerra em três continentes.
"No Mirage, a asa não era enfeite. Era o que permitia Mach 2 com um motor só."
Do Mundo a Anápolis
A Dassault e as linhas licenciadas na Austrália e na Suíça entregaram cerca de 1.422 Mirage III, 5 e 50. Paquistão, África do Sul, Austrália, Suíça, Espanha: o delta virou o caça de quem não comprava americano — ou não podia. No Brasil o contrato saiu em 12 de maio de 1970: doze IIIEBR e quatro IIIDBR, o F-103 da FAB. Os primeiros chegaram em outubro de 1972. Pierre Varraut voou o FAB-4910 em Anápolis em 27 de março de 1973. Era o primeiro supersônico de defesa aérea do país, o primeiro com radar de bordo e míssil ar-ar. O 1º GDA ficou com a missão de cobrir o Planalto. Em 33 anos e mais de 67 mil horas, mais de duzentos pilotos passaram pelo delta. O último voo operacional foi em 31 de dezembro de 2005.
O tampão foi outro Mirage. Doze 2000 usados da França — dez C e dois B, o F-2000 da FAB — pousaram a partir de 2006 e voaram até 31 de dezembro de 2013. Mesma asa, comandos elétricos, radar RDI, Super 530D. Não era o FX. Era o delta que a FAB ainda entendia, enquanto o Gripen não chegava.
O Que Ficou no Delta
A família cresceu ao lado do III e depois dele. O F1 dos anos 1970 trocou o delta puro por asa em flecha e profundor, para pista mais curta. O 2000, que voou em 1978 e entrou em serviço em 1984, voltou ao delta — agora com comandos elétricos. O Rafale herdou a firma, não o avião. O Paquistão ainda voa III e 5. O III não ficou porque era o caça mais belo do céu. Ficou porque um Mach 2 francês, barato o bastante para exportar, coube em Anápolis, em Hatzor e em dezenas de outras bases onde o F-4 não cabia na conta.
Referências
- Dassault Aviation — ficha do Mirage III: III-001 (17 nov. 1956), Mach 2 do IIIA (24 out. 1958) e entrada do IIIC na Armée de l’Air (19 dez. 1961).
- Wikipédia — Dassault Mirage III: Atar, IIIC/E/5, ~1.422 exemplares, Guerra dos Seis Dias e operadores.
- Força Aérea Brasileira / MILAVIA — F-103 (IIIEBR/IIIDBR) em Anápolis, 1972–2005; F-2000 (Mirage 2000) 2006–2013.
- História operacional — Operação Foco (5 jun. 1967); Yom Kipur (1973); Malvinas (1982); Nesher/IAI após o embargo francês.
- Wikimedia Commons — SSGT Marvin D. Lynchard, USAF, RAAF Mirage III, 1 out. 1985 (capa); Força Aérea de Israel, IIICJ antes de jun. 1967; SRA Bethann Hunt, USAF, Mirage 2000 sobre o Afeganistão, 27 jun. 2002 (domínio público).