USS Nimitz (CVN-68) com a ala aérea no convés, rumo a San Diego

Porta-Aviões: O Aeroporto a 30 Nós

Em 4 de junho de 1942, por volta das 10h25, bombardeiros de mergulho da Enterprise e da Yorktown caíram sobre a força do almirante Nagumo. No convés do Akagi, do Kaga e do Sōryū, aviões rearmavam e reabasteciam para um segundo ataque: tanques cheios, bombas soltas, o hangar virado depósito. Em poucos minutos, três porta-aviões japoneses — os mesmos que tinham partido para Pearl Harbor seis meses antes — estavam em chamas. O Hiryū ainda lançaria caças naquele dia; ao anoitecer, também ardia. Quatro navios. Uma manhã. O couraçado não foi afundado num único tiro. Perdeu o papel: quem mandava no Pacífico passou a ser o navio que leva o aeroporto.

O Dia em que o Couraçado Perdeu o Mar

Em 7 de dezembro de 1941, seis porta-aviões japoneses atacaram Pearl Harbor. Os couraçados americanos, ancorados em fila, eram o alvo. Os porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos — Enterprise, Lexington, Saratoga — estavam no mar e sobreviveram. A lição não esperou Midway. O canhão de um couraçado alcança dezenas de quilômetros; o avião embarcado, centenas. Uma linha de couraçados não alcança um aeroporto que se move a mais de 30 nós. Midway só tornou a conta visível: afundar os quatro navios de Nagumo valeu mais do que afundar a linha de batalha inteira.

Um Navio Pensado para Voar

O convés corrido apareceu cedo. O HMS Argus, em 1918, foi o primeiro com pista de ponta a ponta, sem superestrutura no meio do caminho. Os Estados Unidos converteram o carvoeiro Jupiter no USS Langley, comissionado em 20 de março de 1922. O Japão comissionou o Hōshō em 27 de dezembro do mesmo ano: o primeiro navio projetado e construído como porta-aviões. Não era um couraçado com uma pista em cima. Era um hangar com leme. A ilha a estibordo — para o piloto ver o navio na reta final —, o hangar abaixo do convés, os elevadores no eixo: o desenho que ainda está no Nimitz. O avião mudou de biplano para jato. O navio, no essencial, não.

O Convés como Máquina

Lançar e recuperar ao mesmo tempo exigia geometria. Nos anos 1950, a Marinha britânica inventou o convés angular: a pista de pouso deixa de coincidir com o eixo das catapultas. Os americanos adotaram no USS Antietam e nunca mais voltaram ao convés reto. Quatro catapultas a vapor, quatro cabos de parada. Decolar deixa de ser uma corrida: é um empurrão a mais de 3 g em menos de cem metros. Pousar não é aterrissar. É um tombo contra o cabo, a cerca de 250 km/h. Se o gancho falha nos quatro, o piloto acelera e volta — o bolter. O convés não é uma pista. É uma fábrica.

Vista aérea da popa do USS Theodore Roosevelt (CVN-71) em navegação, com o convés angular e a ilha visíveis
O USS Theodore Roosevelt visto da popa, 19 de maio de 2005. O convés angular existe para lançar num eixo e recuperar no outro. Foto: PHAN Eben Boothby / U.S. Navy (domínio público).

O pessoal no convés usa cores de camisa que o navio entende sem rádio: amarelo dirige, verde lança, vermelho arma, roxo abastece, branco trata. Sem isso, milhares de pessoas num retângulo de aço viram tumulto. A taxa de sortidas decide a campanha: em pico, um Nimitz devolve mais de 120 decolagens num dia. O porta-aviões existe para devolver o avião ao ar duas horas depois — rearmado, reabastecido, com outro piloto se preciso.

"No mar, o melhor aeroporto não é o maior. É o que não está onde o inimigo espera."
Operador empurra de volta um cabo de parada no convés do USS Dwight D. Eisenhower
Um operador empurra o cabo de parada no USS Dwight D. Eisenhower, 13 de abril de 2007. Os quatro cabos existem para este segundo. Foto: MCSN David Danals / U.S. Navy (domínio público).

A Cidade de Cem Mil Toneladas

O USS Nimitz entrou em serviço em 3 de maio de 1975. 333 metros de comprimento, mais de 100 mil toneladas em carga plena, dois reatores nucleares A4W, quatro eixos, mais de 30 nós sem reabastecer o casco por duas décadas. O JP-5 dos aviões ainda chega por navio-tanque; o porta-aviões, não. Até cerca de 90 aeronaves. Cerca de 5.500 pessoas quando a ala aérea está a bordo — a companhia do navio mais os esquadrões. Dez navios da classe, todos ainda no mar. Uma cidade que anda, com hospital, destiladores e um aeroporto no teto.

Poucas marinhas pagam essa conta. A França opera o Charles de Gaulle, nuclear, com catapulta. O Reino Unido apostou no Queen Elizabeth: rampa na proa, sem cabo, caças de decolagem curta. A China passou do Liaoning — casco soviético reformado — ao Fujian, já com catapulta eletromagnética. O Brasil operou o Minas Gerais e o São Paulo; os dois saíram de serviço. O Atlântico é um porta-helicópteros, não um aeroporto de caça. Sem catapulta e sem cabo, o navio lança o que decola sozinho. Com os dois, lança o que a terra lançaria.

O Que Ficou no Mar

Em 2017 entrou o USS Gerald R. Ford: catapultas eletromagnéticas no lugar do vapor, cabo de parada avançado, algumas centenas de pessoas a menos, a mesma doutrina. Mísseis antinavio de longo alcance e drones baratos encarecem cada metro do convés. Nenhuma outra base, porém, se move a 30 nós e chega onde não há pista amiga. No primeiro dia de uma guerra, o aeroporto em terra pode estar craterado. O que anda, não. Os aviões mudam. O navio que os lança continua a peça que o couraçado deixou de ser: o centro da guerra no mar.

Referências

  1. U.S. Navy — fichas da classe Nimitz e da classe Gerald R. Ford: deslocamento, reatores A4W, ala aérea e tripulação.
  2. Naval History and Heritage Command — Pearl Harbor (7 dez. 1941) e a Batalha de Midway (4 jun. 1942).
  3. Wikipédia — Aircraft carrier, Nimitz-class aircraft carrier e Battle of Midway: Argus, Hōshō, Langley, convés angular e Ford.
  4. Royal Navy / história naval britânica — convés angular e catapulta a vapor, adotados pelos Estados Unidos nos anos 1950.
  5. U.S. Navy / Wikimedia Commons (domínio público) — USS Nimitz rumo a San Diego, 29 jul. 2009 (capa); PHAN Eben Boothby, USS Theodore Roosevelt, 19 maio 2005 (vista aérea); MCSN David Danals, USS Dwight D. Eisenhower, 13 abr. 2007 (cabo de parada).