No domingo 30 de agosto de 2026, às 7h26 da manhã na Flórida, um Falcon Heavy saiu do Complexo 39A com o sucessor panorâmico do Hubble. Três dias depois, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman já estava a caminho do ponto L2 — o mesmo do James Webb, a 1,5 milhão de quilômetros. Não é uma versão menor do Webb. Tem o espelho do Hubble e, em cada exposição, fotografa uma fatia de céu cem vezes maior.
A Mulher que Fez o Hubble existir
Nancy Grace Roman (1925–2018) foi a primeira chefe de astronomia da NASA. Nos anos 1960 e 1970, convenceu o Congresso de que um observatório espacial grande valia o risco. Sem ela, o Hubble provavelmente não teria saído do papel. A agência deu o nome do telescópio em 2020, dois anos após a morte dela. O apelido antigo, WFIRST (Wide-Field Infrared Survey Telescope), descrevia a função; o nome novo descreve a dívida.
Um Espelho de Satélite-Espião
O espelho tem 2,4 metros — o mesmo diâmetro do Hubble. Não é coincidência: veio de um par de telescópios que a National Reconnaissance Office ofereceu à NASA em 2012, hardware de reconhecimento convertido em ciência. A diferença está na óptica de campo largo (três espelhos anastigmáticos, f/7,9) e na câmera. O Hubble observa um campo estreito e profundo. O Roman cobre, numa só exposição, uma fatia muito mais larga do céu.
O Wide-Field Instrument é uma câmera de 300,8 megapixels, 18 detectores H4RG, resolução de cerca de 0,11 segundo de arco — nitidez comparável à do Hubble — sobre 0,28 grau quadrado de céu. Em uma exposição, cobre o que o Hubble levaria meses a mosaicar. A faixa vai do azul (0,48 μm) ao infravermelho próximo (2,3 μm). Não compete com o MIRI do Webb no infravermelho médio; compete em estatística: bilhões de galáxias, não um retrato.
Energia Escura e Planetas à Sombra da Estrela
Os três métodos clássicos de cosmologia cabem no WFI: oscilações acústicas de bárions, supernovas distantes e lentes gravitacionais fracas. A pergunta é se a aceleração do universo é uma energia nova ou se a relatividade geral quebra em escalas cósmicas. O Euclid da ESA já começou essa conversa; o Roman entra com campo ainda mais largo e nitidez de Hubble.
O segundo cartaz é o censo de exoplanetas por microlente gravitacional: planetas do tamanho de Marte, inclusive os que vagam sem estrela. O Coronagraph Instrument (CGI) é o experimento ousado — um demonstrador que apaga a luz da estrela até uma parte em um bilhão, para fotografar gigantes gasosos ao redor das vizinhas do Sol. Se funcionar, pavimenta o futuro Habitable Worlds Observatory.
"Roman will be NASA’s next flagship astrophysics mission after Webb." — Goddard Space Flight Center, no briefing da missão
Noventa Dias até o L2
O comissionamento dura cerca de três meses, enquanto a sonda viaja. Primeiras imagens científicas devem sair no início de 2027; a operação plena, em seguida. Missão nominal de cinco anos, com propelente para o dobro. Como o Webb, ninguém vai consertá-lo. Ao contrário do Webb, o Roman não precisa de um origami de 18 segmentos: o espelho já é de uma peça, no tamanho que a NRO tinha de sobra.
O James Webb fura o tempo. O Hubble ainda manda no ultravioleta e no arquivo de três décadas. O Roman fotografa o mapa. Os três juntos são a estratégia da NASA para a década: profundidade, história e estatística, cada um no seu comprimento de onda.
Referências
- NASA — Nancy Grace Roman Space Telescope. Disponível em: science.nasa.gov/mission/roman-space-telescope
- NASA Goddard — Roman Space Telescope. Disponível em: roman.gsfc.nasa.gov
- NASA — lançamento em 30 ago. 2026 (Falcon Heavy, LC-39A). Disponível em: nasa.gov
- Spergel, D. et al. — relatórios WFIRST/Roman (Decadal Survey 2010 e documentos de missão).
- Wikimedia Commons — imagens de domínio público (NASA / SVS).
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